quarta-feira, 8 de outubro de 2008

GEÓRGIA x RÚSSIA



Tudo começou quando no dia 07 de agosto, a Geórgia enviou tropas para retomar a Ossétia do Sul, uma região que declarou sua independência da Geórgia em 1992. Moscou, que apóia a decisão do pequeno território e tem forças de paz na região, respondeu rapidamente enviando tropas à Ossétia do Sul, dando início a um conflito entre os dois países.
O presidente da França e atual presidente da União Européia, Nicolas Sarkozy, foi encarregado então de mediar as conversas para se chegar a um acordo de paz. Desde a primeira reunião a Geórgia se mostrou positiva para um acordo,  mas não chegou a assinar os termos de trégua, passando para a Rússia a exigência para primeiramente assinar o acordo e retirar as tropas da região.
Depois de 8 dias de confrontos, o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, assinou acordo de cessar-fogo com a Rússia.
O ressentimento com a desintegração da União Soviética, a construção de um oleoduto na Geórgia - que fez com que a Rússia deixasse de ser a única rota do gás e do petróleo da Ásia Central à Europa- e a vontade de conter a influência dos EUA na região são os prováveis motivos para a ofensiva russa na Geórgia.
Segundo Marshall Goldman, PhD em estudos da Rússia pela Universidade Harvard,  a Rússia interfere com tanta força na Ossétia do Sul por uma questão psicológica, material e política. A primeira explica-se da seguinte forma: os russos perderam status, deixaram de ser uma superpotência no começo dos anos 90, quando a economia passou por problemas e deixou o país desintegrado. Por isso a Rússia vê na Ossétia do Sul e na Abkázia uma forma de recriar uma grande Rússia. Principalmente porque os russos perderam muita força e alguns territórios e propriedades. E como os ossetianos e abkazianos tem interesse de fazer parte da Rússia, o país tenta reunificar esses dois territórios.
A parte política é a de que a Rússia vê os EUA e a Europa ocidental tentando levar adiante essa separação (da Rússia) e de cercar a Rússia, vindo pelo seu quintal. Certamente é o que está acontecendo, como vêem, no Cáucaso, nos Estados Bálticos que se uniram à Otan, no Leste Europeu, com a Romênia, Bulgária e Hungria, todas se tornando parte da União Européia e da Otan. Novamente é a questão de o país ter se desintegrado e de querer restabelecê-lo.
No âmbito econômico, eles querem a riqueza em particular. A Geórgia está vivendo um rápido crescimento econômico, de 6 à 7% ao ano, mas há outro aspecto. A Geórgia facilitou a construção de um óleoduto e de um gasoduto através de seu território que liga o Azerbaijão à Turquia, permitindo que o petróleo e o gás da Ásia Central não passem pela Rússia em seu caminho para a Europa.
Os países da Ásia Central tinham de passar pela Rússia, e os russos podiam controlar (o fluxo de combustível) e cobrar impostos sem ter de se preocupar com concorrência.
Agora, Turcomenistão, Cazaquistão e Uzbequistão podem exportar seu petróleo e gás através do Azerbaijão, Geórgia e Turquia. Isso os deixa livres e eles podem diminuir seu preço. A Geórgia tem sido um alvo desde que os russos começaram a se preocupar com essa questão.
O recohecimento por Moscou da independência da Ossétia do Sul e Abkházia, nada mais é do que uma forma de a Rússia devolver na mesma moeda o reconhecimento da independência de Kosovo, Província de sua aliada Sérvia, pelos Estados Unidos e outros 45 dos 192 países-membros da ONU.
De qualquer maneira, a independência não deve mudar muita coisa para os ossetianos e abkazianos, primeiro porque é inviável, as duas regiões autônomas dependem muito de outros estados e países para sobreviver, a Abkházia por ficar no litoral atrai visitantes para a região, mas não o suficiente para sobreviver do turismo, além de ter uma produção modesta de frutas e tabaco. A Ossétia do Sul não produz quase nada e importa a maior parte dos bens que consome da Ossétia do Norte, na Rússia, e isso fará com que os dois territórios continuarão, na prática, assimilados à Rússia. Pelo menos 90% da população da Abkházia e da Ossétia do Sul têm passaporte russo e muitos votaram no pleito presidencial de março, a moeda mais usada também é a russa, a chamada rublo.
Toda essa crise vem gerando um outro problema, a Rússia vem enfrentando resistência para sua entrada na OMC ( Organização Mundial do Comércio), o que já se arrasta por 13 anos.
A tensão entre Geógia e Rússia só comprova que comércio e política são inseparáveis e que tem mais a ver com guerra e paz do que com bananas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

ENTENDA A CRISE NORTE AMERICANA















Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por 300.000 dólares financiado em 30 anos. Em 2006 o apartamento do Paul passou a valer 1,1 milhão de dólares. Aí, um banco perguntou pro Paul se ele não queria uma grana emprestada, algo como 800.000 dólares, dando seu apartamento como garantia. Ele aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e pegou os 800.000 dólares.
Com os 800.000 dólares. Paul, vendo que imóveis não paravam de valorizar, comprou 3 casas em construção dando como entrada algo como 400.000 dólares. A diferença, 400.000 dólares que Paul recebeu do banco, ele comprometeu: comprou carro novo (alemão) pra ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou tv de plasma de 636 polegadas, 4 3 notebooks, 1634 cuecas. Tudo financiado, tudo a crédito. A esposa do Paul, sentindo-se rica, sentou o dedo no cartão de crédito.
Em agosto de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas que o Paul tinha dado entrada e estavam em construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham liquidez
O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Fácil....parecia fácil. Só que todo mundo teve a mesma idéia ao mesmo tempo. As taxas que o Paul pagava começaram a subir (as taxas eram pós fixadas) e o Paul percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre.
Milhões tiveram a mesma idéia do Paul. Tinha casa pra vender como nunca.
Paul foi agüentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que ele comprou, como milhões de compatriotas, para revender, mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da tv de plasma e do cartão de crédito.
Aí as casas que o Paul comprou para re-vender ficaram prontas e ele tinha que pagar uma grande parcela. Só que neste momento Paul achava que já teria revendido as 3 casas mas, ou não havia compradores ou os que havia só pagariam um preço muito menor que o Paul havia pago. Paul se danou. Começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa que ele morava e das 3 casas que ele havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais a Paul.
Paul optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos que não quiseram acordo. Paul entregou aos bancos as 3 casas que comprou como investimento perdendo tudo que tinha investido. Paul quebrou. Ele e sua família pararam de consumir
Milhões de Pauls deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseado nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência dos Pauls esses títulos começaram a valer pó.
Bilhões e bilhões em títulos passaram a nada valer e esses títulos estavam disseminados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos.
Os imóveis eram as garantias dos empréstimos mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço de mercado desse imóvel, preço que despencou. Um empréstimo foi feito baseado num imóvel avaliado em 500.000 dólares e de repente passou a valer 300.000 dólares e mesmo pelos 300.000 não havia compradores.
Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, especulação pura. A inadimplência dos milhões de Pauls atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. A farra do crédito fácil um dia acaba. Acabou.
Com a inadimplência dos milhões de Pauls, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Pauls pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado.
O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir.
O FED começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimo interbancários. O FED também começou a injetar bilhões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo porém essas ações levam meses para surtir efeitos práticos. Essas ações foram corretas e, até agora não é possível afirmar que os EUA estão tecnicamente em recessão.
O FED trabalhava. O mercado ficava atento e as famílias esperançosas. Até que na semana passada o impensável aconteceu. O pior pesadelo para uma economia aconteceu: a crise bancária, correntistas correndo para sacar suas economias, boataria geral, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu, na segunda feira última, quebrado, insolvente.
No domingo o FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não quebrasse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por ação. Há um ano elas valiam 160 dólares. Durante esta semana dezenas de boatos voltaram a acontecer sobre quebra de bancos. A bola da vez seria o Lehman Brothers, um bancão. O mercado e as pessoas seguem sem saber o que nos espera na próxima segunda-feira.
O que começou com o Paul hoje afeta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando. Só o tempo dirá.