sábado, 20 de dezembro de 2008

ERA UMA VEZ...



...um menino de 10 anos de idade que pela manhã trabalhava em uma barbearia, à tarde estudava e à noite trabalhava em uma gráfica.
Todos os dias, no caminho do trabalho, parava na janela de uma escola de piano para ouvir a professora tocar, até o dia em que ela se ofereceu para lhe dar aulas, de graça. Na mesma semana, antes de ter a primeira aula, ele sofreu um acidente na gráfica e perdeu um pedaço da mão. O sonho do piano foi desfeito.
Os anos se passaram, esse menino cresceu e teve filhos, que realizaram o seu sonho de tocar piano. Um deles, no entanto, se destacou. Aos oito anos, seu pai o inscreveu em um concurso para executar obras de Bach e ele venceu o primeiro de tantos outros que estavam por vir.
Aos 20 anos estreou no Carnegie Hall, em Nova York. Nesta época, auge da carreira de pianista, um acidente em uma partida de futebol em Nova York, rompeu um nervo perto do cotovelo, e tirou os movimentos do seu braço esquerdo. Apesar de muita fisoterapia, o pianista decide parar de tocar depois de uma crítica ruim de um jornalista do The New York Times.
Sete anos depois, empresariando o boxeador Éder Jofre, ele resolve retomar o piano, inspirado pela conquista de Jofre no mundial de pesos-pena de boxe, que tinha 37 anos de idade e era tido como um esportista já sem perspectiva de conquistas.
Com muito esforço, esse jovem adaptou seu modo de tocar e conseguiu voltar a tocar como antes, perfeitamente...
Por oito anos tudo corria bem, shows lotados, sucesso no mundo inteiro, até o dia em que suas mãos foram atingidas pela LER ( Lesão de Esforço Repetitivo) e ele teve que mais uma vez, deixar de lado o piano.
Logo depois esse jovem pianista se envolveu em um escândalo de financiamento de campanha do político Paulo Maluf, no qual foi inocentado. Dessa história, a única coisa que vale lembrar é que um crítico de jornal, na época, escreveu que como pianista ele também não prestava. Essa crítica foi essencial para ele retomar os estudos de piano, principalmente também depois que leu uma carta escrita pelo pai, que o defendia e que foi publicada na íntegra em um jornal.
Quando já havia recuperado sua forma e tudo parecia dar certo na sua vida, o destino lhe reservava mais um desafio.
Em um assalto na Bulgária ( sim, na Bulgária acredite) , depois de reagir, levou um golpe com uma barra de ferro na cabeça que resultou em uma lesão cerebral. Foram necessários oito meses de internação e mesmo assim, o lado direito do corpo ficou comprometido.
Apesar de tudo isso, ele fez um tratamento em Miami para programar outra área do cérebro para comandar as mãos. Depois de um ano de trabalho ele já tocava como antes.
Mas com o tratamento as células nervosas responsáveis pela fala, foram afetadas e toda vez que ele falava tinha espasmo na mão. E as dores, ao falar, se tornavam insuportáveis. A única opção dada pelos médicos foi de cortar o nervo da mão. Depois de um concerto, que só ele sabia que era o último, operou e perdeu definitivamente os movimentos da mão direita.
Mas a história não para por aí. Ele ainda tinha forças para tocar só com a mão esquerda, aquela que machucou em um jogo de futebol, e depois de um concerto na China, sentiu-a completamente inchada. Devido o uso excessivo, formou-se um tumor benigno. Nova operação e o pianista perde também, a mão esquerda.
Para quem acha que é assim que essa história termina, se engana. Depois de sonhar com o falecido maestro brasileiro Eleazar de Carvalho, ele começa a estudar regência. Mas como ele não consegue segurar a batuta, rege com os braços. Como não consegue passar as folhas da partitura, as decora, nota por nota.
Em seis meses o pianista já dava concertos em Londres, Paris e Bruxelas.
Atualmente, desenvolve um projeto social, chamado Toca Atitude, que leva música clássica aos jovens de periferia. Rege ainda a Bachiana Chamber Orchestra e a Orquestra Bachiana Jovem, composta de 35 jovens da periferia de São Paulo com a ajuda voluntária de professores.
Seu nome? Superação, vitória, coragem, paixão, exemplo... João Carlos Martins.
E você, antes de ler este texto, devia estar reclamando da sua vida.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O DESAFIO É CRIAR UMA CIDADE PARA AS PESSOAS E NÃO PARA OS CARROS

Recentemente li uma entrevista do Enrique Peñalosa, que foi prefeito de Bogotá de 1998 a 2001 e responsável por iniciar a implantação do Transmilênio, um sistema de ônibus rápido. Achei bastante interessante a linha de pensamento dele sobre as soluções para o trânsito em grandes metrópoles como São Paulo e a forma de avaliar a democracia em uma cidade.
Ele fala que uma cidade verdadeiramente avançada é aquela em que os ricos usam transporte público, caminham e vão a parques. O contrário disso são cidades onde os ricos andam de helicóptero, vão a clubes fechados, a shoppings e moram em condomínios. Sensacional....aí percebemos a falsa impressão de cidade desenvolvida que São Paulo possui, lembrando ainda que São Paulo possui a maior frota de helicópteros do mundo.
O Central Park, em Nova York é um ótimo exemplo de parque e cidade avançada, onde os mais ricos empresários praticam esporte ao lado de pessoas que nem sabem onde vão dormir à noite. Para isso acontecer aqui no Brasil precisamos de segurança, razão pela qual muitas dessas idéias pra solucionar o trânsito não funcionam. Infelizmente pegar um transporte público e ter a certeza de que você não será assaltado, está muito longe da realidade do brasileiro. Comodidade, conforto e qualidade são questões dispensáveis de comentários, principalmente pra quem pega transporte público lotado diariamente.
Se esses problemas fossem resolvidos estaríamos no caminho certo, mas acredito também, que as pessoas só vão deixar de andar de carro quando isso realmente implicar em um custo muito maior. O valor da gasolina, por exemplo, deveria custar três vezes mais e o dinheiro arrecadado investido em transporte público.
Hoje em dia o que se percebe, principalmente na classe média, é que as pessoas querem sim que o transporte público seja ampliado, principalmente o metrô, mas para sobrar mais espaço pra ela andar de carro, sem precisar enfrentar trânsito. É aí que mora o problema, enquanto as pessoas não se conscientizarem de que elas também precisam deixar o carro em casa, não adianta cronstruir mais e mais rodovias, elevados, túneis...quanto mais construções desse tipo, mais carros estarão nas ruas.
Os espaços públicos são muito importantes e termômetros da democracia em uma cidade. Quanto mais espaço para pedestres, ciclistas, ônibus e carros, nessa ordem, mais democrática a cidade será. Se houver mais espaço para carros, haverá mais carros; menos espaço, menos carros.
Outra observação que Peñalosa faz é sobre as calçadas. Uma boa calçada é símbolo de que o cidadão que a usa tem o mesmo valor da pessoa que está dentro de um carro de R$ 40.000. Calçada, segundo ele, também é um símbolo de democracia e é o que diferencia uma cidade boa, de uma ruim.
E como fazer um bom planejamento urbano? Se tiver a oportunidade, amarre o Secretário de Planejamento da sua cidade em uma cadeira de rodas e faça com que ele ande sozinho pela cidade. Se ele conseguir chegar a algum lugar, parabéns sua cidade tem um bom planejamento, caso contrário, acho que ele vai passar a planejar melhor as obras na sua cidade, depois dessa experiência.